A NOITE DO VODU
Livro de Terror Escrito por
ALLAN FEAR
Capítulo 1
Apaixonado
Evocação
dia 6 de novembro de 1999
O
que vou lhes contar agora não é apenas uma história cujos acontecimentos e os
personagens foram criados por minha imaginação ou a de qualquer outra pessoa.
E não tenho de nenhuma maneira a
intenção de assustá-los com minha história, nem muito menos impressioná-los. O
motivo que me leva a narrá-la é simplesmente me desabafar e alertá-los sobre
determinados atos de desespero e fraqueza que podem levar a destruição. Mas de
nenhuma maneira estou tentando dar-lhes conselhos, longe de mim fazer isso, uma
vez que na minha opinião, conselhos não servem para nada. Cada um tem que fazer
o que quiser, e se por ventura se der mal, tentar aprender com os próprios
erros, como é o meu caso.
Vou dar-lhes um exemplo sobre o que
me aconteceu de tão grave; tentem imaginar; você é um rapaz de 17 anos, e nada
de muito especial acontece em sua monótona vida, aí, certo dia, uma garota se
muda para uma casa em frente à sua. Mas esta não é uma garota normal como as
outras que você conhece. Ela é especial, dona de uma beleza que logo na
primeira vista veio a te encantar. Aí, assim de repente, você se vê apaixonado
por ela, mas ela o despreza e esse amor parece impossível. Mas você não
consegue tirá-la da cabeça, por mais que tente, pensa nela a todo instante, e
não sabe mais o que fazer para tê-la apenas para você.
Um dia de repente, surge uma
possibilidade de você conseguir fazê-la se apaixonar por você. É a única chance
que você tem, se desperdiçá-la, você terá de conviver apenas com pensamentos
ilusórios de um dia namorar com ela.
Decidam por se próprios o que vocês
fariam se estivessem no meu lugar.
Agora
deixe-me narrar detalhadamente os fatos ocorridos.
Melissa! Assim se chamava a linda
garota por quem me apaixonei perdidamente, ela tinha, na época, 16 anos. Sua
pele era branca como a neve, os longos cabelos eram negros e lisos e os mais
cintilantes olhos azuis claros que eu já tinha visto na vida. Seu corpo muito
bem definido, sem qualquer defeito físico, queria dizer que de duas coisas uma;
ou ela se matava malhando e fazendo dietas ou simplesmente foi premiada por
Deus. Ela tinha um metro e cinquenta e cinco de altura, um pouco mais baixa do
que eu. Até hoje me lembro do dia
em que ela se mudou para a casa de frente à minha, na Rua Hollow n° 666, foi
num sábado de manhã, quando saia para ir à casa de um amigo. Quando ela me
olhou com aqueles brilhantes olhos azuis, senti meu coração bater mais forte
dentro do peito.
Isso foi só o começo, alguns dias
depois ela começara a estudar no mesmo colégio em que eu estudava.
Lembro-me que já no seu primeiro dia
de aula, Melissa jogava vôlei com o resto da turma, e neste horário o professor
que daria aula para minha classe, havia faltado, então subi para ver a outra
classe na educação física, foi aí que vi o que me deixaria boquiaberto,
arrepiado e apaixonado: Melissa estava no ginásio do colégio, ela vestia um
short rosa-choque colado e muito curto, e usava também uma mini baby-look
preta, que permitia visualizar o tamanho exato de seus seios. Ela era perfeita,
com um belo par de torneadas pernas. E suada como estava, com os longos e
brilhantes cabelos esvoaçando no ar a medida que ela pulava para sacar a bola
ou para bloquear o saque adversário, a deixava mais sexy. Sua voz, mesmo
gritando, era suave e delicada.
Em um determinado momento, a bola de
vôlei veio em minha direção, uma vez que eu estava ao lado da quadra, eu a peguei
e Melissa veio em minha direção para apanhá-la. Senti, naquele momento, que o
tempo havia mudado, como se Melissa caminhasse lentamente em minha direção. Eu
podia sentir as batidas do meu coração como altas e potentes pancadas. Então a
entreguei a bola que segurava, deixando que meus dedos tocassem os dela. Nesse
momento senti um arrepio estranho percorrer todo o meu corpo, da cabeça aos
pés.
Ela me disse: -Obrigada! - Olhando
nos meus olhos e sorrindo.
Assim, de um momento para o outro, o
tempo pareceu voltar ao normal, e senti o quanto meu coração batia acelerado
dentro do peito. Meu rosto queimava.
Isso até faz parecer que eu sou um
rapaz tímido, não é? Mas acontece que não. Não sou tímido de forma alguma, e
sempre me relacionei muito bem com as garotas, fossem elas bonitas ou não. Mas
admito, nunca havia sentido por qualquer outra garota, por mais linda que fosse
ela, o que senti por Melissa.
Mas e ela? Teria sentido o mesmo por
mim?
Não sabia dizer.
Os dias foram passando, e cada vez
mais, aumentava o amor que eu sentia por Melissa. Aquela paixão estranha se
enraizava em meu coração!
Esperava eu, a todo instante, um
momento para me declarar para Melissa.
E lembro-me muito bem do dia em que
o fiz. O dia em que quase morri!
Capítulo 2
O primeiro encontro
Evocação dia 11 de novembro de 1999
Era
uma sexta-feira à noite, por volta das 8 horas, quando vi Melissa saindo de sua
casa sozinha. Ela usava uma saia curta jeans e blusa de alça laranjada. A brisa
fresca que soprava fazia seu cabelo agitar selvagemente.
Rapidamente comecei a segui-la.
Ela ia pela rua, que era mal
iluminada, e parou no final desta, próximo a várias árvores grandes e grossas.
Fiquei afastado, só a observando.
Esperando e expiando cada gesto dela.
Permaneci ali por cerca de uns cinco
minutos, e me decidi ir até ela me declarar. Talvez ela estivesse esperando por
alguém, mas como não havia aparecido até aquele momento, talvez não viesse
mais. Deveria ser só uma amiga que dera o bolo nela. Respirei fundo. E em um
ato desmedido e agindo por puro impulso fui até ela e me apresentei, disse que
morava na casa em frente a sua, que estudava na mesma escola que ela, entre
outras coisas do tipo; onde você morava antes? O que está achando desta cidade?
Etc.
Ela era meiga, simpática e muito
divertida. De repente comecei a elogiá-la, dizendo o quanto a tinha achado
linda... enfim, elogiei-a por completo e abri meu coração, me declarando para
ela. Foram alguns momentos mágicos, e tudo que eu falava para ela, era olhando
dentro dos teus lindos e brilhantes olhos azuis cintilantes. Ela parecia gostar
do que ouvia, enquanto um lindo e contagiante sorriso iluminava seu rosto.
Então sem dizer mais nenhuma palavra
eu a beijei, surpreendendo-na.
Foi um beijo lindo, um choque elétrico
invadiu meu corpo e me arrepiei todo. Fiz força para não desabar em seus
braços.
Mas o beijo foi interrompido por um
grito forte e furioso que disse:
-Melissa!? O que diabos está
acontecendo aqui?
Viramo-nos para trás e vimos um
rapaz forte e alto que usava um boné preto com a aba virada para o seu lado
direito e roupas largas.
-Beto?!- Disse Melissa assustada,
seu rosto ficou pálido e sua voz tremia. Assustada, ela começou a explicar que
não era o que ele estava pensando, que só estava conversando comigo e que de
repente eu a beijei. Ela jurou não ter culpa nenhuma.
Naturalmente eu perguntei quem era
ele, esperando que Melissa dissesse que fosse seu irmão ciumento. Mas isso não
aconteceu, pois ele era na verdade seu namorado. E furioso, ele me atacou,
jogando-me no chão e me dando vários socos. Eu nada fiz, só apanhei e me
lamentei. Tentei dizer a ele que não sabia que ela tinha namorado, mas de nada
isso adiantou. Melissa, depois de alguns minutos, o impediu de continuar me
batendo. Ela o puxou do chão, tirando-o de cima de mim.
Ele, com os olhos transbordando
fúria, me ameaçou, dizendo que me mataria se eu encostasse ao menos um dedo em
Melissa.
Então ambos saíram, me deixando
estirado sobre a calçada fria e dura, ao pé de uma das árvores, cujos galhos
secos se agitavam e estalavam como ossos de esqueletos.
Quando fui jogado ao chão, ralei os
cotovelos, que ardiam para valer. Escorria um pouco de sangue pelo meu nariz,
por causa dos socos que recebera.
Melissa nem se importara comigo, e o
pior, tinha um namorado!
Capítulo 3
UM AMOR DOENTIO
Evocação dia 16 de novembro de 1999
O
certo seria esquecê-la, mas juro por Deus que não conseguia. O beijo que dei
nela me deixou ainda mais apaixonado. Por mais que tentava me distrair com
qualquer outra coisa, não dava. Minha mente era invadida com aquela cena: eu
beijando Melissa!
Inquietava-me toda vez que tentava
fazer alguma coisa, pois o desejo de ficar com Melissa não me abandonava,
perseguia-me todo momento, incansavelmente. Meu peito doía. Sentia um vazio
depressivo no meu coração.
Decidi-me novamente chegar até
Melissa e dizer que a queria e que não conseguia esquecê-la. Assim o fiz, logo
no dia seguinte, num sábado à tarde, quando vi Beto deixar a casa de Melissa, sozinho.
Em seguida corri até lá e bati campainha.
Melissa atendeu a porta e ficou
muito surpresa ao me ver. Tentei dizer a ela o quanto estava apaixonado, e
também disse, falando muito depressa, que não conseguia tirá-la da cabeça um só
instante.
Mas Melissa disse que não poderia
haver nada entre nós, nem mesmo amizade. Também disse que amava seu namorado
Beto, e o que ocorrera na noite anterior, se referindo a nosso beijo, não
passou de uma atitude precipitada de minha parte.
Em seguida disse para mim deixá-la
em paz e fechou a porta na minha cara.
Oh! Como aquilo me machucou. É
sério. Doeu demais. Ela me desprezara!
***
Desilusão pura e absoluta. Não havia
outro sentimento em meu peito senão este que me deixava para baixo.
Naquele momento saí sem rumo,
andando pelas ruas que ia encontrando pela frente, até que parei numa praça e
sentei-me num dos bancos e comecei a chorar... Ai de mim meu Deus! Como sofria naquele
fatídico momento. Sentia uma melancolia depressiva que abalava minha estrutura.
O que eu podia fazer? Amava mais e
mais Melissa, um amor estranho e louco, tão repentino como uma tempestade.
E agora que Melissa estava ciente
disso, do quanto eu a amava, ela me desprezava. Mas como eu poderia saber que logo minha vida iria mudar para
sempre? Que algo diabólico estaria próximo de acontecer?
Capítulo 4
Evocando o demônio
Evocação dia 21 de novembro de 1999
Ah!
Como me lamentei por não a ter ou por não conseguir esquecê-la. Foi aí que uma
garota, que sequer eu havia visto, que estava sentada num banco ao lado do meu,
veio até mim e perguntou porque eu chorava tanto.
Olhei para ela, com meus olhos
lacrimejantes, e vi que aparentava ter uns 40 anos, tinha a pele negra e usava
longas roupas pretas, saia e camisa de mangas compridas, um turbante, roxo com
símbolos místicos, e vários crucifixos e pentagramas sobre o peito. Seu rosto
tinha rugas de expressão que lhe davam um ar de cansaço.
Ela sentou-se ao meu lado e disse
seu nome: Magda! Então comecei a contar-lhe os motivos de meu pranto. Ela logo
percebera o quanto eu estava apaixonado por Melissa, e disse que poderia me
ajudar a conseguir o amor de Melissa. Naturalmente a perguntei como ela poderia
me ajudar em tal coisa, que eu mesmo não conseguira.
Então ela começou a me explicar que
era feiticeira, e que sabia fazer uma feitiçaria para Melissa se apaixonar por
mim.
Não acreditava muito nesse tipo de
coisa, mas era, quem sabe, uma, senão a última, chance de conseguir ter
Melissa. E acreditem, naquele momento eu estava disposto a tudo.
-Ok. - Disse a ela. -O que tenho de
fazer?
Ela disse para eu a acompanhar até
sua casa, que ficava a uns três quarteirões daquela praça. Concordei e fomos
até lá.
Quando chegamos, naquela casa de
aspecto rústico, ela me convidou a acompanhá-la até um quarto, não muito
grande, que ficava na parte de trás da residência no final de um grande e
gramado quintal.
Neste quarto, havia inúmeras imagens
de gesso de estranhos homens e mulheres, ao que tudo indicava; bruxos e bruxas,
dentre várias imagens de demônios e seres sinistros. As imagens tinham cerca de
um metro de altura e eram todas coloridas.
No quarto, iluminado por velas de
sete dias em candelabros pendurados na parede, também tinha uma mesa forrada
com um longo pano preto, bordado nele havia vários pentagramas, e sobre este
tecido havia uma bola de cristal entre duas velas, uma preta e uma vermelha,
que Magda, ascendeu.
-Vamos começar o feitiço que fará
com que essa tal de Melissa se apaixone perdidamente por você.
Senti firmeza em suas palavras, que
pareciam ser sábias.
Lembro-me de ter perguntado a ela se
não era preciso ter nenhuma foto de Melissa para executar o ritual, mas ela
disse que não, que bastava eu me concentrar nela e tudo daria certo. De um baú
que estava debaixo da mesa, ela retirou um crucifixo de uns
Eu jamais havia visto um crucifixo
igual aquele. Era todo preto, com vários pentagramas em cada ponta, que eram
finas e afiadas, como pontas de espada. Bem no centro, havia uma imagem de um
bode de olhos vermelhos.
A perguntei que crucifixo era aquele
e ela respondeu-me num sussurro, olhando dentro dos meus olhos: -Esta é a cruz de Satanás!!!
Estremeci-me ao ouvir o nome
pronunciado, mas aquilo era parte do feitiço para me unir a Melissa. Naquele
momento, sentindo o que eu sentia por Melissa, não me importava em vender minha
alma ao diabo, só para tê-la para mim. Minha situação era desesperadora e lamentável.
Eu bem o sei agora.
Magda ascendeu um incenso de um
cheiro forte e penetrante e começou a pronunciar palavras em uma língua que
jamais ouvi. Depois disse em português:
- Vossa majestade Lúcifer, ó
príncipe das trevas, envie-me Aziel, um dos príncipes coroados do inferno, que
ele venha a mim neste momento, eu vos invoco!
Eu estava sentado do outro lado da
mesa, à frente de Magda e, de repente, minha visão ficou embaçada, não mais me
permitindo ver claramente nada à minha frente.
Virei minha cabeça e percebi que não
era a minha visão que estava embaçada e sim, uma espécie de fumaça
esbranquiçada que saia do crucifixo e neblinava o ar, mas essa fumaça começou a
escurecer até ficar preta, e desta fumaça preta e densa, começou a formar um
rosto. Mas não era um rosto humano. Não! De jeito nenhum aquilo se assemelhava
a um rosto humano! Era a face indescritível e apavorante de um demônio!
Estremeci-me novamente e senti meu
corpo se arrepiar.
Então, de um momento para o outro, a
forma do rosto do demônio desapareceu, e junto com ela a fumaça se dissipou. Vi
a face de Magda, que me olhava fixamente, e a luz das velas faziam as sombras
dançarem em seu rosto, que parecia uma caveira. Em seguida ela disse-me num tom
de voz profundo e agudo:
-Não temas meu jovem. Aziel e sua
legião de espíritos está aqui unicamente para ajudá-lo a realizar seu desejo!
De uma só vez senti uma presença ao
meu lado e quando olhei, não consegui impedir de me afastar para trás, com um
grito engasgado na garganta, pois ao meu lado se encontrava a figura
indescritível de Aziel, que estava de pé, e ao seu redor circulavam várias
criaturas que se camuflavam nas trevas, e estes seres infernais tinham olhos
vermelhos e brilhantes.
De repente um odor de enxofre
penetrou-me as narinas, fazendo-me tossir algumas vezes. E era-me invadido por
uma energia pesada, carregada, era como se eu estivesse com muita febre, sentia
os calafrios percorrerem meu corpo e gelar o sangue em minhas veias.
-Faça o seu pedido a vossa majestade
Aziel...- sussurrou para gritar em seguida: -
Agora! - Praticamente ordenando-me Magda.
Então supliquei a ele, fazendo meu
pedido, mas sem olhá-lo nos olhos, pois não conseguia, e quando o fazia,
ardia-me os olhos, como se neles fossem lançadas chamas. Chamas vindas do
inferno!
-Vejo
que seu amor por esta garota é muito forte.- Começou a falar-me o servo de
Lúcifer. Sua voz era estranha, suprema e grossa. Seu timbre fazia as paredes
vibrarem. –Mas para que ela seja sua,
uma vida terá que ser destruída.
O próprio Aziel começou a me
explicar como teria que fazer para que Melissa se apaixonasse por mim:
-Melissa
é apaixonada por Beto, seu namorado, sendo assim para que ela o deixe de amar e
apaixone-se por você, ele terá de ser destruído!
Eu amava Melissa, mas não queria
cometer um assassinato. Queria? Seria mesmo capaz? Poderia ser preso, me dar
mal, e até ser morto!
Mas o demônio explicou-me como eu deveria
fazer para que nada saísse errado:
-Magda lhe fará bonecos de vodu
encarnados, correspondente a Melissa e Beto e lhe concederá uma caixa de
alfinetes consagrados. Sendo assim, tudo que ao boneco acontecer, acontecerá da
mesma forma com a pessoa a quem o boneco representa. O boneco de Melissa você
deverá guardar com todo o cuidado, deixando-o protegido, e assim Melissa será
sempre sua. Já o boneco de Beto você deverá destruí-lo da forma que desejar.
Quando o fizer, Melissa será apenas sua. Sua para sempre!
Parecia muito fácil, fácil demais! Nem
precisei oferecer minha alma nem dar meu sangue, só precisei pagar uns trocados
pelo serviço de Magda.
Mas e o sentimento estranho que
sentia naquele momento? Um desejo de executar logo o assassinato! Acho que não
tenho palavras para descrever o quão forte era o júbilo que me invadia o peito.
Eu estava obstinado. Determinado a qualquer custo
Capítulo 5
Assassinato
Evocação dia 26 de novembro de 1999
No
outro dia, Magda me entregou a caixinha de alfinetes e os bonecos de vodu. Eram
bonecos de pano, costurados a mão, e cada um deles, trazia estampado no peito,
o nome a quem ele representava.
Mas o boneco de Melissa era amarrado
por um grande laço vermelho, que segundo Magda, era para aprisioná-la ao meu
amor. Os levei para casa, ciente de que o boneco de Melissa tinha que ser muito
bem protegido. Assim o fiz, o guardei em meu quarto, dentro de uma estante, ao
lado de alguns bonecos clássicos que colecionava.
Eu morava com meus pais e eles não
mexiam em nada que era meu, nem mesmo para arrumar, pois sempre gostei de cuidar
eu mesmo de tudo que me pertencia.
Já o boneco de Beto, eu o levei para
os fundos de minha casa, segurando na outra mão a caixinha de alfinetes. Sentia
ódio por Melissa amar Beto e não eu, e também o odiava por ter, naquela noite
de sexta-feira, me arrebentado.
Era hora de minha vingança
definitiva.
Coloquei o boneco deitado no chão gramado
e comecei a espetá-lo com vários alfinetes! Em seguida fiquei horrorizado, pois
alfinete que espetava no boneco, saía um filete de sangue, e pareceu-me, ouvir
um grito de morte. Poderia ser apenas impressão minha, certo? E o sangue
poderia ser um truque, se eu, naquela noite passada, não tivesse visto e
conversado com o próprio satanás.
Depois de enfiar ao menos uma dúzia
de alfinetes no boneco, eu cavei um buraco pequeno, pois o boneco não passava
de uns
Agora precisava me certificar se
tudo ocorrera como planejado.
Mas neste dia não consegui encontrar
Melissa. Ela não estava em casa.
Só no outro dia, logo cedo, fui
saber através de minha mãe, que o namorado da nova vizinha, que era Melissa,
fora assassinado misteriosamente, e não encontraram o assassino.
No momento em que ouvi esta notícia,
senti um calafrio, e mais que isso. Senti poder. Não poderia ser apenas uma
simples coincidência. Ele morrera por magia vodu. Eu o matara, e ninguém
poderia me culpar por isso. Ninguém. Um crime perfeito!
Fui para meu quarto, peguei o boneco
de Melissa e fiquei a contemplá-lo.
De repente ouvi baterem na porta.
Rapidamente guardei o boneco novamente dentro da estante e fui ver quem era.
Surpreendi-me completamente ao ver
Melissa, parada, me olhando profundamente. Assim que me viu ela me abraçou
fortemente. Contou-me o que ocorrera com Beto e disse que agora poderíamos
ficar juntos.
Então ela me beijou e confessou que
estava atraída por mim, que de repente passou a sentir uma necessidade de estar
comigo, algo que ela não podia controlar e muito menos explicar. Pediu perdão
por parecer tão desesperada e me abraçou com força.
O que tanto queria eu finalmente
havia conseguido.
Começamos então a namorar, mas um
fato desagradável aconteceu. Foi quando ela me levou a sua casa para me
apresentar para seus pais.
Conheci primeiro sua mãe Abigail, que
era muito simpática e doce.
Estávamos Melissa, Abigail e eu
conversando na sala, quando chegou seu pai, o Sr. Bartolomeu.
Quando Melissa contou-lhe que
estávamos namorando, ele se irritou bravamente. Disse que não queria saber de
sua filha namorando um moleque como eu, entre outras coisas que prefiro não
dizer. E o pior, Bartolomeu me expulsou de sua casa quase aos pontapés. Gritou
a plenos pulmões que se me pegasse novamente com sua filha me arrebentaria.
Já tinha ido longe demais para
desistir de Melissa. Não seria seu pai que iria me fazer desistir. A princípio,
não sabia ainda o que eu poderia fazer para me livrar de Bartolomeu.
Mas, uma ideia diabólica penetrou-me
a mente. O que seria mais fácil e rápido do que pedir a Magda que me fizesse um
boneco de vodu de Bartolomeu, para que eu o pudesse destruí-lo, assim como
fizera com Beto?
Isso mesmo! Já havia matado uma vez,
poderia muito bem matar novamente.
Capítulo 6
A matança continua
Evocação dia 1 de novembro de 1999
Então
fui até Magda e a encomendei mais um boneco, desta vez com o nome de Bartolomeu
estampado no peito.
Quando ela me entregou o boneco,
novamente cobrando alguns trocados, eu a agradeci por estar me ajudando. Ela
sorriu-me e disse que não era nada. Voltei para casa e aguardei o momento certo
para destruir o boneco.
Eram por volta das 9 horas da noite,
peguei o boneco de Bartolomeu, um binóculo e vários alfinetes e subi para a
laje de minha casa. Lá de cima dava para ver o quarto dos pais de Melissa.
Esperei um pouco e logo Bartolomeu apareceu. Acabara de sair do banho, ainda
usava uma toalha enrolada no corpo.
Foi aí que comecei a espetar o
boneco, lhe enterrando os alfinetes.
A primeira espetada foi no braço
direito, e quando olhei pelo binóculo, vi Bartolomeu pôr a mão sobre seu braço
direito e gemer de dor. Foi exatamente como, do nada, sentimos uma súbita
fisgada no corpo.
Então comecei a perfurá-lo
freneticamente, fazendo o sangue vermelho-brilhante jorrar do boneco. Olhei
pelo binóculo e vi o homem cair no chão, todo ensanguentado, exalando seus
últimos suspiros enquanto era possuído pelo terror do sobrenatural que o
dilacerava.
Depois de alguns minutos Abigail o
encontrou. Naturalmente se desesperou. Logo depois chegou a polícia.
Naquela noite não consegui conversar
com Melissa. Ela tinha ido, logo de manhã, por ordem da mãe, para a casa de uma
tia.
Mas algo não saiu como planejado.
Abigail foi acusada de assassinar Bartolomeu, seu próprio marido. Isso porque
segundo informações ela descobrira que ele estava tendo um caso com outra.
Brigaram sério naquela manhã e ela disse que o mataria.
Mas ela não o fez. Coitada, pelo pouco
que conheci dela, a pobre mulher jamais teria coragem de matar alguém. Mas
acabou indo presa. Senti pena de Melissa, de repente sua vida se transformou
num inferno. Sei que tenho culpa dessa desgraça que estava acontecendo com ela,
mas tudo que fiz foi por amor.
Melissa passou a morar com uma tia
em sua casa e continuamos a namorar. Mas ela estava diferente, tais desgraças
em sua vida a deixaram depressiva. Mas ela me amava e era isso que me
importava.
Era, para mim, maravilhoso os
momentos em que passava com ela, embora ela nunca mais sorria.
***
Certo dia, sábado de outono, em uma tarde
nublada, eu voltava para casa depois de comprar duas passagens de ônibus para
Melissa e eu viajarmos para o interior, onde minha família tinha um sítio, que
estava vazio.
Planejava passar o final de semana
lá, a sós com minha amada Melissa. Desejava poder possuí-la e realizar com ela
todas as minhas fantasias sexuais. Melissa ficara em sua casa terminando de
arrumar suas malas, enquanto eu ia fazer o mesmo em minha residência.
Quando entrei em minha morada,
encontrei minha tia Sandra, que eu não via há anos, conversando com minha mãe. Ela
costumava muito raramente passar em nossa casa para nos visitar. Só o fazia
quando deixava o interior para comprar novas mobílias.
A cumprimentei e de repente escutei
vários gritos. Em seguida apareceu Daniel e sua irmã Tâmara, duas crianças
entre 9 e 10 anos, suas mãos e roupas estavam banhadas em sangue.
As crianças estavam apavoradas.
Sandra e minha mãe perguntaram-lhes o que lhes haviam acontecido. Em seguida os
levaram para o banheiro para limpar todo aquele sangue que gotejava no carpete.
Certamente se cortaram com alguma
coisa. Não me preocupei muito e fui para meu quarto. Muitas idéias excitantes
sobre estar a sós com Melissa passavam por minha cabeça.
A porta do meu quarto estava aberta
e quando entrei senti meu corpo estremecer, meu sangue gelar dentro de minhas
veias, e um pavor incontrolável invadir meu corpo e minha alma. Comecei a
tremer descontroladamente sem conseguir dizer palavra alguma. A porta da
estante estava aberta e sobre o tapete do meu quarto, havia vários alfinetes,
os mesmos que eu usara para destruir os outros bonecos, e uma enorme poça de
sangue. E no meio de todo aquele sangue vermelho-brilhante, estava o boneco de
Melissa feito em pedaços!!!
Capítulo 7
O livro encarnado de Lúcifer
Evocação dia 6 de novembro de 1999
As forças do mal me
deram o que eu tanto desejava: Melissa! O meu grande amor! Mas o mal a levou. O
mal levou o meu amor para o mundo dos mortos. Mas o mal o trará de volta para
mim de seu túmulo.
Depois de ver o boneco de Melissa
despedaçado, corri até sua casa e a encontrei. Pobre Melissa. Estava caída no
chão da sala, ao lado de uma mala. Seu corpo sangrava em vários pontos.
–Melissa!- gritei enquanto a pegava
no colo. Mas já era tarde. Muito tarde para minha adorada Melissa. Ela estava
morta. Não sentia sua respiração. Não sentia seu pulso e sequer seu coração. O
fôlego da vida havia deixado seu corpo.
Lágrimas escorriam por minha face,
queimando minha pele e gotejando no rosto sem vida de minha amada.
De repente, alguém entrou na casa.
Olhei na direção da porta e vi a tia de Melissa. Ela me fitava com horror em
seus olhos cansados.
–Oh! Meu Deus!- gritou ela, quase
sem voz. –Monstro! O que você fez a Melissa?
-Nada. Eu...- antes que pudesse
completar a frase, ela sentou-se no sofá num canto da sala e disse: -Eu vou
chamar a polícia. Você matou a Melissa. Desgraçado!
“Maldita.
Vai me ferrar. Como posso explicar que Melissa morrera por magia negra? Não. Se
a polícia me prender, tudo estará perdido.” Pensei apavorado.
Levantei-me do chão, soltando o
corpo de Melissa, fui até a sala e apanhei uma cadeira da mesa de jantar.
A tia de melissa, sentada no sofá
com o telefone no ouvido, ao perceber minha presença seus olhos se encheram de
um terror mudo.
-Não!...- murmurou ela. Levantou-se e
tentou correr. Neste exato momento, a golpeei com toda minha força. A cadeira
quebrou ao atingir sua cabeça e costas. O barulho foi alto. Tão alto quanto um
trovão. Ela caiu pesadamente sobre o chão. Um sangue vermelho-púrpura lhe
jorrava do ouvido enquanto que do nariz lhe descia um só filete
vermelho-brilhante.
“Estará
morta?” Perguntei a mim mesmo. Desesperado, fugi da casa. Tinha de bolar um
plano. Mas tudo que fiz foi sentar nos degraus da escada em frente à minha casa
do outro lado da rua e fiquei tentando pensar em alguma coisa. Meus pensamentos
confusos se embolavam em minha mente em uma doentia confusão mental. A rua
estava deserta e o silêncio inquietava-me o espírito.
Alguns minutos depois eu vi duas
pessoas vindo ao longe pela calçada. Eu as reconheci, bolei um plano e as
chamei. As duas garotas eram colegas de colégio, Denise e Nayara. As chamei
para irem comigo até a casa de Melissa ajudar com algumas malas, disse que
estávamos indo viajar.
–Nós estamos indo viajar. - disse a
elas um pouco excitado.
-Para onde vão? - perguntaram as
garotas em uníssono.
-Vamos para um sítio da minha
família.- disse rapidamente, depois de tocar várias vezes a campainha.
-Acho que ela não está em casa.-
disse Denise tirando o cabelo preto do rosto.
-Talvez já esteja na rodoviária te
esperando.- disse Nayara fazendo o mesmo gesto da amiga. Ambas pareciam gêmeas,
exceto que Denise tinha o cabelo preto e Nayara loiro. Ambas eram de estatura
mediana, usavam saia jeans e baby-look branca. Ambas tinham o rosto claro e
aveludado e olhos verde-jade.
-Não. Combinamos que eu ia passar
aqui quando eu estivesse pronto.- eu disse, deixando que percebessem que eu
estava um pouco nervoso. –A porta deve estar aberta. Vamos entrar.- concluí.
Rodei a maçaneta e aporta se abriu.
Entramos todos e fitamos com horror os corpos sem vida. Primeiro o da tia, na
sala, em seguida o de Melissa, no quarto.
-É horrível demais!! Quem poderia
fazer uma coisa dessas?
-Estou chocada. Que brutalidade. - Gritavam
as garotas diante do massacre.
Enquanto as garotas se lamentavam,
apavoradas com aquela carnificina, corri para o telefone e disse enquanto
discava:
-Vou chamar a polícia.- chorava
também, afinal doía demais ver minha namorada morta.
Lágrimas escorriam por minha face pálida.
–Alô. Polícia? Acabo de chegar na
casa de minha namorada com duas amigas e a encontrei morta. E sua tia, que mora
com ela, também parece estar morta!- dizia rapidamente, com a voz trêmula de
pavor.
Enquanto as garotas horrorizadas
deixaram a casa, eu me lembrei de tentar limpar minhas digitais da cadeira que
eu havia usado para golpear a tia de Melissa. No meu desespero usei uma flanela
que encontrei sobre o braço do sofá para isso.
Pouco depois a polícia chegou na
casa de Melissa, junto com uma ambulância.
***
Após
aqueles momentos tristes e apavorantes, dois dias mais tarde, fui com meus pais
ao enterro de minha amada Melissa. Era uma tarde fria, silenciosa, com o céu
coberto pelas sinistras nuvens cinzentas e opressoras.
Eu sentia uma dor forte dentro do
peito. Sentia que uma parte de mim estava dentro daquele caixão.
Mas naquele dia não chorei. Apenas
mantive-me calado. Depois levaram o caixão com o corpo de Melissa para uma
cripta. A mesma cripta onde estavam seus entes queridos. Ela se juntara a eles.
Um vazio de imensa depressão inflamava-se em meu coração.
A polícia acreditara
–É muito estranho. - foram as
palavras do delegado. Ele parecia suspeitar de mim. Me fitou com um olhar
acusador durante um tempão. Juro que naquele momento pensei que ele podia ler
meus pensamentos e então saberia toda a verdade.
Capítulo 8
A namorada morta
Evocação dia 11 de novembro de 1999
Um
dia depois do funeral de Melissa, num domingo à noite, saí de casa com um único
destino: encontrar Magda, a feiticeira que me ajudara a conquistar Melissa.
De alguma forma, não sei como, sabia
que ela poderia me ajudar. Ajudar a ter Melissa de volta. De volta do túmulo!
Andava pela rua escura, com o céu
nublado. Via os clarões provocados pelos raios, e ouvia os trovões barulhentos.
Caminhava rápido. Precisava vê-la novamente. Contar-lhe o que ocorrera. Exigir
que ela ressuscitasse Melissa.
Mas quando cheguei até sua casa, as
luzes estavam apagadas. Uma senhora vinha passando pela rua, quando me ouviu
gritar, chamando a feiticeira. Ela parou e disse:
–Ela viajou há dois dias. Foi para
casa dos pais, numa cidade do interior. Deve voltar daqui há umas duas semanas.
Talvez antes. Não sei.
Esperei a velha se afastar e pulei o
muro da casa. Rapidamente me dirigi aos fundos, onde ficava o seu quarto de
magia.
A porta do quarto estava trancada,
tive que arrombá-la com um chute forte que ecoou na noite como um trovão.
Entrei e comecei a procurar pelo seu livro de magia.
Acendi uma fraca luz que ficava no
teto, que jorrava sua luz pálida sobre o pequeno quarto, cheio de imagens de
demônios, um baú e... –Espere!- disse eu em voz alta. –É do baú que ela retirou
a cruz de Satanás e àquele grosso livro de magia.
Corri para o baú, o abri e lá estava
o grosso livro de capa preta e o crucifixo de Aziel. Os peguei e me afastei
dali, indo o mais rápido que podia para minha casa.
Pouco depois, já em meu quarto, comecei a folhear o livro. Achei o índice e fui procurando um feitiço para ressuscitar uma pessoa. Parei quando achei uma magia para devolver a vida aos mortos.
***
Depois de pular mais um muro, agora
o do cemitério, corri para a cripta onde estava o corpo de Melissa. Puxei o
compartimento, onde estava seu caixão, abri a tampa e a contemplei. Embora com
a expressão pálida da morte na face, ela continuava linda. Lindamente morta!
–Nem mesmo a morte pode roubar sua
beleza. Ela é eterna!- disse e a beijei. Seus lábios estavam tão frios...
-É agora.- disse num sussurro. -Vou
executar o ritual e trazê-la de volta à vida minha amada Melissa. Seremos
felizes outra vez. Nosso amor será imortal!
Retirei-a do caixão, deitando-a
cuidadosamente no chão, segurei firmemente a cruz de Aziel em uma das mãos e
com a outra segurei o livro, aberto no respectivo feitiço para trazê-la de
volta à vida.
-Eu, - disse meu nome, evoco os
poderes do além-túmulo nesta noite de necessidade. Em nome do príncipe das
trevas, o poderoso Aziel, cujo paladino é Carmiles. Vós que tem muitos
subordinados, traga de volta a este mundo, precisamente para este corpo a alma
de Melissa, que vaga sem rumo pelo vale das sombras. Traga na para este corpo.-
em seguida, com uma das pontas da cruz, perfurei minha mão esquerda, como
mandava o livro, e derramei o sangue sobre a boca de Melissa, fazendo-a
engolir. Depois continuei. –E em troca deste favor, dou-lhe minha alma e meu
sangue. Juro te fidelidade eterna e o adorarei de todo meu coração! Mas agora
devolva a vida para Melissa.- olhei para o seu corpo e esperei. Nada. Nenhum
sinal de vida. Melissa continuava morta.
-Droga!- comecei a resmungar, pondo
as mãos sobre o rosto. –O que será que deu errado? Era para Melissa voltar à
vida, não era? Será que já era tarde demais???
Capítulo 9
Ressurreição
Evocação dia 16 de novembro de 1999
Eu
estava ali parado, sem reação, olhando para o cadáver de Melissa, fitando o seu
rosto branco como a neve, foi quando de repente, a vi abrir seus olhos.
-Melissa?!- disse num fio de voz.
Ela se ergueu, ficando sentada no chão. Abaixei-me e a abracei fortemente. –Melissa,
meu amor. Você voltou à vida?! Agora será imortal!
Ela nada disse. Seu olhar era
perdido. Não piscava. Sequer se movia. E seu coração não batia. Também não conseguia
sentir sua pulsação.
“Melissa agora seria uma morta-viva?”
“Mas ela é minha amada.” Os
pensamentos sinistros inundavam minha conturbada mente. Mas eu já havia
planejado como iria ser. O que eu iria fazer. Já decidira tudo, assim que achei
aquela magia para ressuscitar Melissa.
Depois de trazer Melissa para o
mundo dos vivos, guardei o caixão vazio no seu lugar, e levei Melissa para
minha casa. Ela ia caminhado devagar, eu era seu guia. Iria escondê-la até o
outro dia. E logo pela manhã, a levaria para o sítio da minha família. Lá
poderíamos nos entregar ao amor.
Não foi difícil levá-la até meu
quarto. Meus pais já estavam dormindo. Era por volta das duas horas da
madrugada. Melissa não falava nada. Ela apenas se deixava ser guiada por mim.
Era minha escrava.
Deitei-a na minha cama, e dormimos
lado a lado. Dormi por algum tempo, creio que foi pouco, um sono sem sonhos. Eu
estava exausto. Mas maravilhado com a ciências ocultas do demônio.
Capítulo 10
Possessão demoníaca
Evocação dia 21 de novembro de 1999
Quando
despertei vi que Melissa não mais estava ao meu lado. Olhei em volta e vi que
ela não estava no quarto. A porta estava entreaberta. Chovia fino lá fora.
–Melissa!- murmurei. –Melissa onde
você está?
Levantei e comecei a procurá-la pela
casa.
–Melissa.- ia sussurrando o seu nome
enquanto andava na calada da noite à sua procura.
Parei frente à porta do quarto dos
meus pais e vi uma poça de sangue no chão.
-Sangue? - Murmurei num sussurro.
Sentindo um súbito arrepio percorrer meu corpo. – O que terá acontecido?- abri
a porta que estava encostada e entrei. Estava muito escuro. Não se via nada
além de trevas. Acendi a luz e vi com horror a cabeça do meu pai pendurada no
lustre por uma corda que transpassava os ouvidos. Gotas de sangue lhe escorriam
do pescoço decepado.
Sentia meu estômago embrulhar.
Estava horrorizado com o que via. Olhei mais adiante e vi que o lençol branco
que forrava a cama estava banhado em sangue.
-Mãe.- consegui dizer com a voz
trêmula e falhada. –Onde estará minha mãe?- neste momento senti uma presença
atrás de mim. Olhei rapidamente e só vi a porta aberta. Não havia ninguém.
Voltei o olhar para o interior do quarto e vi com espanto a figura
fantasmagórica de Melissa!
Dei um passo para trás. Melissa me
olhava com um olhar diabólico. Havia algo de maligno nela. Não sei bem o que. Era
como se crepitassem as chamas do inferno em seus olhos.
–Foi você quem matou meu pai?-
perguntei com uma voz esganiçada, fitando-a severamente, tentando disfarçar o
horror que estava sentindo.
Um silêncio mórbido reinou soberano
por um momento. Só se ouvia o barulhinho da chova caindo na telha.
Mas, de repente, fortes pancadas na
porta da rua começaram ameaçadoramente. Corri para lá e perguntei:
-Quem é? Quem está aí?- as batidas
cessaram, assim que ouviram minha voz.
Silêncio. Uma chuvosa noite de
silêncio. O mórbido silêncio voltara a reinar. Inquietante e assustador.
Ouvi finalmente uma voz dizer meu
nome do outro lado da porta. Era familiar. Uma
voz feminina. –Sou eu, Magda. A feiticeira! Lembra-se?
-Magda!?- disse surpreso ao abrir a
porta e contemplá-la. –O que faz na minha casa a essa hora da noite?
-Vim buscar o meu livro e minha cruz
que você roubou.- disse ela suavemente.
-Não roubei nada. Apenas peguei-os
emprestados. Mas como você soube disso?- perguntei curioso.
-Sou uma feiticeira e sacerdotisa
vodu, lembra-se? Tenho poderes especiais. Mas, vamos, conte para que você
queria o livro de magia e a cruz de Aziel?.
-Você não tem poderes? Deveria
saber.- disse, brincando. E neste momento me dera conta de ter esquecido que
minutos atrás encontrara meu pai morto. Decapitado.
-O que foi? Parece assustado!- disse
Magda, enquanto entrava na casa.
-Melissa morreu...- comecei a dizer
num fio de voz. –alguns primos meus, destruíram, sem saber o que faziam, o seu
boneco de vodu. E eu...- mas antes que pudesse terminar o que dizia, Magda me
interrompeu.
-Você não está tentando me dizer que
pegou meu livro de magia para tentar trazer Melissa de volta a vida, não é?-
sua expressão calma, agora, ganhava um ar de preocupação.
-Eu estava desesperado. Foi a única
chance de ressuscitá-la. Disseram que você estava viajando. Se esperasse até
você voltar poderia ser tarde demais. Tente entender. Por favor...
Ela franziu as sobrancelhas e se aproximou
mais de mim. Colocou sua mão direita sobre o meu ombro e disse:
-As arte da necromancia têm de ser
feita por quem tem os conhecimentos. Pode ser perigoso se executada por alguém
inexperiente.
-Meu pai...- comecei a dizer, com a
voz trêmula e falhada. –Alguém o matou. Encontrei a pouco, sua cabeça pendurada
no lustre.
-Melissa voltou à vida?- perguntou
Magda, olhando em volta da sala.
-Sim.
-Isso é terrível. Onde ela está?
-Ela estava no quarto dos meus pais
quando vim atendê-la. – falei num sussurro, virando-lhe as costas. –Você não
quer me dizer que Melissa os matou, não é? Ela não faria isso. Jamais!
-Talvez não seja Melissa quem você trouxe
do além-túmulo! - falou Magda num sussurro.
-O que quer dizer com isso? - perguntei,
virando-me novamente para olhá-la nos olhos com meu coração esmurrando meu
peito.
Mas antes que ela pudesse dizer
alguma coisa, ouvimos um barulho vindo do fundo da casa. Um ruído estranho.
Em silêncio, fomos os dois na
direção do barulho. De repente uma mão agarrou o meu pé e caí pesadamente no
chão.
-Aiiiiiii- gritei, sentindo meu peito doer ao
me estatelar com força no chão. Magda acendeu a luz da sala. Só a luz da
varanda iluminava perto da porta da rua até então.
Levantei e vi um corpo caído atrás
do sofá.
-Oh! Deus!!- lamentei
apavoradamente. –Mas é minha mãe!?- seu corpo estava caído, todo retalhado por
marcas de mordidas famintas. –Não... Não... Não...- lamentava eu, chocado
demais.
-Precisamos encontrar Melissa.
Definitivamente algum espírito do mal está possuindo seu corpo.- disse Magda
com um tom de preocupação na voz, em seguida me pegou pelos ombros e me
balançou. Tentando me despertar do horror que estava me dominando.
Capítulo 11
O Exorcismo
Evocação dia 26 de novembro de 1999
Fomos
os dois em direção ao corredor, onde no final, estava meu quarto. Olhamos antes
no quarto dos meus pais e Melissa não estava mais lá.
-Deve estar no seu quarto.- disse
Magda, sussurrando em meu ouvido. Íamos lado a lado, pelo corredor não muito
estreito. Entramos no meu quarto, eu acendi a luz, e vimos Melissa parada, com
as costas voltadas para nós.
Silenciosamente Magda pegou uma
espada de aço que eu deixava de enfeite na parede do meu quarto. Era uma grande
e pesada espada de bárbaro. Adorava as histórias do Conan, e sempre sonhara em
ter uma espada igual à dele.
-O que vai fazer com essa espada?
Não está pensando em ma...
-É só para proteção.- interrompeu-me
Magda, entregando-me a espada. –Tente manter Melissa distraída, caso ela tente
nos atacar, enquanto pego o livro e a cruz. Preciso expulsar o mal que se
apossou de seu corpo.
-Será que consegue?- perguntei
nervosamente.
-Talvez.- disse ela em resposta.
-Evoque Aziel e peça-lhe ajuda.
-É isso que pretendo fazer para
salvar nossas vidas!
-Melissa.- falei em voz alta,
tentando chamar sua atenção. O livro e a cruz estavam, visivelmente, em cima da
estante. Melissa virou-se e me encarou. Ainda estava com aquele olhar
diabólico. Pôs-se a fitar-me severamente. Eu segurava a espada com as mãos
trêmulas, desejando não ter de usá-la. Afinal, se eu destruísse Melissa todos
os meus esforços seriam em vão.
Quando Magda chegava perto da
estante, andando devagar e com os olhos fixos em Melissa, esta se virou para
ela. –Melissa.- gritei. –Não se mova!!
Mas ela me ignorou e saltou para
cima de Magda, cravando-lhe uma faminta mordida no ombro. Corri para ajudá-la.
Puxei Melissa com força para trás, e a tirei de cima de Magda.
Sua cabeça bateu com força em meu
peito, fazendo-me desequilibrar e cair no chão. A espada voou de minha mão indo
parar no meio da sala. Neste momento Melissa pulou pra cima de mim. Estava
possuída pela fúria. Uma fúria animal descomunal.
Suas unhas grandes e afiadas
arranharam meu rosto. Senti minha pele rasgar, em seguida ela cravou seus
dentes em meu pescoço. Ia aumentando a pressão.
De repente ela se afastou. Magda a
puxara. Melissa pôs-se de pé e foi pra cima de Magda, encurralando-a contra a
parede.
–Nãããooo!!!- gritou Magda
horrorizada, enquanto Melissa segurava fortemente os seus braços. –Por favor.
Não me mate! Eu suplico. Aziel, ajude-me!
-Aaaaaaahhhhhhhhhhhhhh!!! – Então um
grito furioso como como um trovão explodiu no aposento.
Capítulo 12
Pro inferno com o demônio
Evocação dia 1 de dezembro de 1999
“Isso
tudo já foi longe demais.” Pensei amargamente. “Já chega deste inferno.”
Abaixei-me e apanhei a espada e com um grito furioso arranquei a cabeça de
Melissa. Foi um golpe certeiro.
Sua cabeça pulou fora do pescoço e caiu
sobre o chão provocando um baque seco. Segundos depois foi à vez de seu corpo
tombar. Não havia sangue. Nem uma gota sequer. Atirei
a espada para um canto e aproximei-me de Magda, que estava sangrando, parada no
canto da parede. Ela me olhou surpresa. Boquiaberta. Espavorida.
–Você... você a decapitou. Sei que
não tinha outra maneira, mas...- interrompeu-se por alguns segundos e
continuou. –Você foi tão corajoso. Ela era seu grande amor...- lágrimas lhe
desciam da face.
-Já chega!- falei num murmúrio-
Acabou! Não vale a pena. Tantas mortes... até meus pais foram mortos por causa
dessa minha obsessão doentia. E a morte de Melissa é minha culpa. Eu renego a
este amor impossível!
Magda continuou em silêncio, mesmo
após eu terminar de falar. Olhei então para a cabeça de Melissa, que permanecia
caída no chão. Seus olhos estavam fechados. Algumas gotas de sangue, o meu
supostamente, lhe escorria da boca.
Olhei depois para o corpo degolado,
há alguns metros da cabeça, e neste momento ouvi o grito apavorado de Magda.
Acompanhei o seu olhar e vi que os olhos de Melissa, antes fechados, agora
estavam abertos.
-Estão mortos!- disse espantosamente
a cabeça de Melissa, com uma voz estranha. Cavernosa. De um timbre masculino.
–Despedaçarei seus corpos e destruirei suas almas!- concluiu ameaçadoramente.
-Não é possível!- gaguejou Magda
estarrecida. –O mal ainda se hospeda no corpo decapitado de Melissa. Mas como?
-Feiticeira imbecil.- disse a cabeça
olhando para Magda. –Sabe que não pode me vencer. Você jurou fidelidade ao
imperador Aziel. Lembra-se? Você não passa de uma escrava agora.
Magda ficou muda, paralisada, com
seu corpo tremendo descontroladamente.
Capítulo 13
Um último assassinato
Evocação dia 13 de dezembro de 1999
-Magda!-
comecei, fitando-a. –O que há com você?- mas ela nada disse. Continuava a
tremer. Estava apavorada. Algo sobrenatural parecia impedir seus movimentos.
Andei até a cabeça de Melissa, que voltou o olhar diabólico para mim e disse:
-Você vai morrer! Vai pro inferno
junto com seus pais e as pessoas que matou!- eu não disse nada. Apenas
limitei-me a fitá-la profundamente. Minha expressão era séria. “Tenho de destruir a cabeça.” Pensei
furioso. Neste momento ouvi passos. Passos que se aproximavam de mim. Olhei
para trás e vi o corpo sem cabeça de Melissa, de pé, vindo em minha direção,
com os braços estendidos.
O medo me gelava o sangue dentro das
veias. Paralisava meus movimentos. Privava-me de qualquer reflexo rápido. Meu coração
batia acelerado fazendo meu peito latejar. Meus dentes se debatiam na boca. Um
arrepio intenso começava na parte inferior das costas e ia subindo até a nuca.
Tentava engolir a seco. Mas nem isso eu conseguia. Não era só o medo. Uma força
maligna de telecinesia privava-me dos movimentos.
O corpo sem cabeça já estava colado
no meu.
Senti as mãos geladas tocarem o meu
pescoço. Tentei gritar. Mas nenhum som saía de minha boca. As frágeis mãos
femininas de Melissa, agora tinham uma força inacreditável, que apertavam o meu
pescoço. Estava me esganando. Iria me matar!
Comecei a ficar rapidamente sem ar.
Lutando para tentar sair daquele transe que me paralisava. Mas era inútil.
“Espere!” Pensei surpreso, segundos
depois. “Estou conseguindo mexer os dedos das mãos.”
Mas já era tarde. Muito tarde. Tarde
demais para mim.
Um arrepio intenso começou a
percorrer todo o meu corpo. Em seguida minha visão começou a ficar turva. Tudo
parecia girar ao meu redor. E aos poucos tudo ia ficando escuro.
O arrepio era descomunal. Intenso
demais!
“Oh! Meu Deus!!” consegui pensar,
escutando o eco de meu pensamento retumbar em minha cabeça. “E-estou morto?”
Depois disso nem mais um som sequer
conseguia ouvir. Apenas um silêncio profundo e mórbido reinou soberano em meio
a mais profunda e eterna escuridão do vazio.
“Estou realmente morto?” era tudo
que conseguia me perguntar naquele estado de perturbação absoluta. E aquela dor
angustiante? Por que ficava aumentando tanto? Oh! Será que vou aguentar tamanho
sofrimento?
Dói demais. Eu preciso de ajuda.
Ouço gemidos e ranger de dentes. Oh! Que pesadelo é este?
Capítulo 14
A verdade revelada
Evocação dia 23 de dezembro de 1999
-Eu
sofria. Oh! Como era terrível este sofrimento! Mas sei que a culpa é minha.
Estou sendo julgado segundo minhas obras.- falou o espírito daquele rapaz pela
boca da médium.
Era mais uma noite de evocação naquele
recinto. Sentados à mesa estavam á médium, Eunice, e mais quatro membros. Eram
eles: O presidente da casa Ronaldo, seu irmão José, Lúcia e Marcos.
-Meu irmão- começou Ronaldo,
enquanto Lúcia registrava tudo com sua câmera digital. –A história de sua vida,
que nos contou, durante essas sessões, nos fez refletir muito. Temos algumas
perguntas, posso fazê-las agora?
-Sim!- disse o espírito do rapaz
pela boca da médium, cuja fisionomia calma ganhara um semblante sério, com
todos os músculos do rosto contraindo-se.
Pergunta. -Quanto tempo faz que você
morreu?
Resposta. –Não sinto mais o tempo
como antes. Mas como hoje é 23 de
dezembro de 1999, já faz bem uns 10 anos.
P. –Depois que morreu você viu sua
amada?
R. –Sim. Mas por muito tempo fiquei
no estado de perturbação. Vagava por vales sombrios, ouvia gemidos, gritos e
via os corpos. Ah! Os corpos sem cabeças... Ai de mim, que cena horrível de se
ver. Eu via Melissa apodrecer, e eu também via meu corpo, e as vezes estava
preso dentro dele. Como sofri. Eu via meus pais chorando, perdidos em um mar de
sangue...
P. –E o demônio, Aziel, a quem você
fez um pacto? Você o viu no mundo espiritual?
R. –Sim! Ele me atormentava sem
cessar. Dizia que eu seria seu escravo. Que me levaria para o inferno. Foi
horrível demais.
P. –Agora você continua a sofrer?
R. Silêncio. Só um longo urro de
lamentação saiu da boca do médium.
P. –Você ainda está aí?
R.-Sim.- sussurrou ele num timbre
medonho.- um frio gélido, com um odor putrefato invadiu o recinto. –E logo
todos vocês estarão comigo.
Uma risada maléfica explodiu naquele
aposento. E todos puseram-se a fitar com horror inúmeras sombras negras, como
densos gases malcheirosos, escapar da boca do médium.
Os gases obscuros se espalharam pelo
ar, penetrando os orifícios dos presentes, numa horripilante possessão
coletiva.
Eles haviam evocado não só o
espírito daquele rapaz sofredor, mas também alguma coisa muito assustadora que
veio junto com ele do túmulo. Alguma coisa mortal. Alguma criatura que não mais
era humana. Que talvez fosse o próprio
demônio Aziel e suas legiões infernais.
OFERTAS ESPECIAIS





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